sábado, 27 de setembro de 2008

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passam por suas vidas.


Clarice Lispector em "Há Momentos"

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Sinais











Você acredita em sinais?
E o que você diria se eu contasse que o meu ônibus e o dela vêm sempre juntos.
Sempre um após o outro.
Nós vamos para direções opostas da cidade, mas se o ônibus dela aponta lá bem distante,
eu já sei que o meu vem logo em seguida.
O contrário também acontece
Nunca ficamos sozinhos na parada.
Nunca.
Deve haver alguma explicação metafísica pra isso, não?
Um intérprete de sinais poderia dizer que caminharemos sempre juntos,
no mesmo barco.
Em ônibus diferentes, pode até ser.
Mas no mesmo barco.
Poderia significar também que nossas vidas sempre se acompanharão,
mesmo que em direções opostas.
E que em alguma parada dessas daí nos encontraremos.
Ou, sendo cético, foi a coincidência fez a EMTU dar uma mãozinha pra tornar a espera do ônibus mais um momento pra dividir, e somar e multiplicar.
Mas ser cético não tem graça.
Prefiro pensar no eterno retorno das linhas de ônibus,
no vaivém eterno de nós dois.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Pois é (III)

Pois é
Vou até onde conseguir
e caminho enquanto esqueço que um dia já pensei ser tarde demais
Pois é
o que esperamos nunca se atrasa
a convicção do fracasso foi substituída pela esperança da realização
Pois é
Ainda que os fantasmas do passado venham dizer que não dá
não dá pra ouvi-los
vou até onde conseguir
o sorriso suplantou as lágrimas
a alma plena empurrou pra fora a vazia
o medo foi vencido pelo amor
porque o perfeito amor lança fora todo o medo
Pois é

Pois é (II)

Por Marcelo Camelo

Pois é, não deu
Deixa assim como está sereno
Pois é de Deus
Tudo aquilo que não se pode ver
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração que teima em bater
avisa que é de se entregar o viver

Pois é, até
Onde o destino não previu
Sei mas atrás vou até onde eu consegui
Deixa o amanhã e a gente sorri
Que o coração já quer descansar
Clareia minha vida, amor, no olhar

Pois é

Por Chico Buarque

Pois é!
Fica o dito e o redito
Por não dito
E é difícil dizer
Que foi bonito
É inútil cantar
O que perdi...

Taí!
Nosso mais-que-perfeito
Está desfeito
O que me parecia
Tão direito
Caiu desse jeito
Sem perdão...

Então!
Disfarçar minha dor
Eu não consigo dizer:
Somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim...

Enfim!
Hoje na solidão
Ainda custo
A entender como o amor
Foi tão injusto
Prá quem só lhe foi
Dedicação
Pois é!

Taí!
Nosso mais-que-perfeito
Está desfeito
O que me parecia
Tão direito
Caiu desse jeito
Sem perdão...

Então!
Disfarçar minha dor
Eu não consigo dizer:
Somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim...

Enfim!
Hoje na solidão
Ainda custo
A entender como o amor
Foi tão injusto
Prá quem só lhe foi
Dedicação
Pois é! Então!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Pra não esquecer

Show de Marcelo Camelo
Coquetel Molotov - 19/09/08

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Das coisas que compartilhamos


Quantas pessoas já viram você chorar? Há momentos, situações ou palavras que ao serem trocadas transformam colegas em amigos, relacionamentos efêmeros em profundos, contatos fugazes em constantes, o gostar em amar, o passageiro no perene. Quando um alguém, ainda que seja só um alguém, vê tuas lágrimas - não de soslaio, mas olho no olho; não acidentalmente ou à revelia de quem chora, mas um chorar realmente compartilhado - deixa de ser um simples alguém para entrar definitivamente na tua história. Quem quer que tenha recolhido as tuas lágrimas recebeu um pouco da tua alma, e pra entrega de alma não há devolução. O momento do derramar de lágrimas é um momento de nudez sem reservas. Nudez da alma. quem já recolheu tuas lágrimas, ainda que vá embora, um dia voltará, porque um substrato da alma sempre volta ao seu todo, ainda que seja no fim, no fim de tudo. Sinta-se um privilegiado ao ver alguém, rendido, chorar sem pudores na sua presença. Recolha reverentemente estas lágrimas. Elas escorrerão para a tua alma e vocês estarão ligados para sempre, porque um dia, estas gotas de alma, ainda que você esteja distante, voltarão com um pouco de você para a sua origem. Nunca esqueça disso

domingo, 14 de setembro de 2008

A ti

A ti

A quem não vejo nem escuto

Mas sinto

A ti

A quem tantas cheguei falando a linguagem das lágrimas e fui compreendido

A ti

Que colocou dentro de mim uma dependência infinita do teu infinito

A ti

Que não tem nada a ver com as instituições que dizem falar em teu nome, pra eles inominável, porém, fácil de dizer para os simples

A ti que me preenches de tudo quando estou no nada

Que quando tropeço não me apontas o dedo na cara

Que sobre mim põe a mão e em cujos braços repousa minha alma

A ti

Que consegue me ver por trás dos trapos

Que acredita por mim naquilo que não acredito

Que não me dá as costas por conta de minhas dúvidas

E questionamentos

Mas neles coloca fé

A ti

Que é poesia, que é música

Que é conversa com amigos ao som do violão

Que é domingo chuvoso abraçadinho com a namorada

Que é rodízio de pizza de graça

Que é Marisa monte cantando uma música de Chico

Que é pão de queijo do meu pai

Café com leite da minha mãe

Que é conversa no msn com meu irmão que tá longe

Que é convite pra sair do meu irmão que tá perto

Que é ligação de amigo dizendo que ta com saudade

A ti

Que é tudo em todos

De quem sou aprendiz

Minha força motriz

A ti

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O que somos


"Dentro de nós existe algo que não sabemos o nome. Esta coisa é o que somos"
José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira

Cada página de Saramago é profunda. Faça o teste. Você pode simplesmente abrir ,aleatoriamente, em qualquer uma delas e vai encontrar algo pra ser dito, re-dito e guardado. Saramago coloca na boca de uma das personagens da qual menos se esperava vir tal coisa, a frase acima. A mulher de óculos escuros(sem óculos, na foto do filme de Fernando Meirelles), de prostituta, antes, a filósofa,depois da cegueira, nos faz olhar pra dentro de nós, fazendo-nos perceber que somos tão cegos quanto ela se tornou. Cegos para o que somos, quem somos. Quem somos? Cegos, cegos, cegos...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Oração a Freud

Freud nosso de cada dia
venerada seja sua teoria
venha a nós o nosso id
satisfaçamos sua vontade
o ego nosso de cada dia nos oriente hoje
perdoai as nossas pulsões e instintos
assim como nós perdoamos os instintos a nós dirigidos
não nos deixeis cair nas garras do superego
mas livra-nos dos traumas e do complexo de édipo
Amém

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dois Navegantes

Aqui estamos juntos
Ao por-do-sol
Dois navegantes
No mesmo barco

Aqui estamos sós
Ao por-do-sol
Andando lado a lado
No mesmo mar

Não deixes a vela apagar
Nem o mastro cair
Nem a corda prender

Só deixes o vento que solta
Teus cabelos
Espelhos dos meus

Te soprar
E soprar em mim
Pra depois
Deslisar em ti
Deslisar em mi

Ave Sangria

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Sou









Só ele pra fazer perceber que o "sou", não é, nada mais, que um "nós" ao contrário.
Se você, leitor, pode dizer, pra quem quer que seja, "nós", você poderá dizer,
e só assim, "sou".

Guarda o teu coração

Sorte no jogo, azar no amor. Diziam os sábios populares. Acho que não. Azar no jogo e azar no amor é mais provável. Porque amar não seria o mesmo que jogar? Ou jogar, o mesmo que amar?
Pobre dos românticos, que acreditam no amor eterno. Vinicius já disse: "Que seja eterno enquanto dure", totalmente cônscio de quão volúvel é o amor. Melhor não amar, leitor. Evitarás as maiores preocupações que poderão te advir. Tu ficas com o amor, faça dele bom proveito. Eu fico com o que disse o sábio: "De tudo aquilo que tens pra guardar, guarda o teu coração".
Mas quedo-me conformado diante de um adversário que não avisa que vai chegar. Entra pela janela, sorrateiro, e tira de nós aquilo que mais prezamos, a racionalidade. Certas faltas a razão não perdoaria, o amor vai lá e perdoa. Certas pessoas nunca nos interessariam, o amor, como quem zomba, vai lá e direciona, justamente para estas, a corrente de nossa vitalidade. Já disse por aqui, amar é vulnerabilizar-se (amarum-vulnerabilisaste-est). E vulnerabilizar-se não é bom. Amar é perder o controle, e isto também ,leitor, definitivamente, não é bom. Só me resta dizer, querido amigo, cuidado com o amor, guarda-te, esquiva-te, procura esconder-se, foge. Ele faz, de um salto, aqueles por ele capturados, de altivos auto-suficientes em frágeis dependentes viciados.