quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Vasto Mundo, Coração Vasto

Mundo mundo vasto mundo

se eu me chamasse Raimundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Trecho de "Poema de Sete Faces" - Carlos Drummond de Andrade

Prece pra quem me conhece

Quero aprender a servir-te sem as algemas das instituições
Quero aprender a ouvir-te sem o intermédio dos sacerdotes de araque
Quero aprender a viver com o coração acima da tradição
Quero, mais do que tudo, ser segundo o teu coração
Só não quero ter minhas reflexões caladas, minhas dúvidas escondidas, meus anseios negados
Nego a igreja que não é mais tua
Mas te quero como nunca
Sem permitir que ninguém pense por mim
Nem me diga o que fazer
O que é certo, o que é errado
Tente me tolher
Não admito, não suporto, não aceito
Não quero levantar o brasão de uma instituição
Quero-te apenas
Apenas
Quando o teu povo se reunir de novo
Sem as carteirinhas de membro de alguma denominação
Estarei lá
Você sabe
Sim, tu sabes que te amo

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Sobre escolhas

Lágrimas
São elas que vêm pra lavar os olhos do cisco do erro
Limpam o caminho pra que a gente veja melhor o que vem por aí
Jogam pra longe nossas escolhas erradas
Parece que sempre escolhemos errado, sempre.
Se errar é humano e permanecer no erro é burrice, meu grito é relincho
Setenta vezes sete é pouco pra mim, muito pouco.
Não sei escolher, não me deixe fazê-lo, por favor, não o sei
Traga apenas, diante de mim, a peça que falta a este quebra-cabeça
E faça-me viver por um sorriso
Um sorriso que me liberte de mim mesmo

Cleonardo

Eutanásia

Por Rubem Alves
Sempre que se fala em Eutanásia ,os seus opositores invocam razões éticas e teológicas. Dizem que a vida é dada por Deus e que, portanto, somente Deus tem o direito de tirá-la. Eutanásia é matar uma pessoa e há um mandamento que proíbe isso. Assim, em nome de princípios universais, permite-se que uma pessoa morra em meio ao maior sofrimento.Pois eu afirmo: sou a favor da eutanásia por motivos éticos. Albert Camus, numa frase bem curta, disse que, se ele fosse escrever um livro sobre ética, 99 páginas estariam em branco e na última página estaria escrito "amor". Todos os princípios éticos que possam ser inventados por teólogos e filósofos caem por terra diante dessa pequena palavra: "amar". Deus é amor.O amor, segundo os textos sagrados, é fazer aos outros aquilo que desejaríamos que fosse feito conosco, numa situação semelhante. Amo os cães e já tive dezenas. Muitos deles eu mesmo levei ao veterinário para que lhes fosse dado o alívio para o seu sofrimento. Fiz isso porque os amava, eram meus amigos, queria o bem deles. E eu gostaria que fizessem o mesmo comigo, se estivesse na situação de sofrimento deles.Defender a vida a todo custo! De acordo. É a filosofia de Albert Schweitzer e a filosofia de Mahatma Gandhi: reverência pela vida. Tudo o que vive é sagrado e deve ser protegido. Mas, o que é a vida? Um materialismo científico grosseiro define a vida em função de batidas cardíacas e ondas cerebrais. Mas será isso que é vida? Ouço os bem-te-vis cantando: eles estão louvando a beleza da vida. Vejo as crianças brincando: elas estão gozando as alegrias da vida. Vejo os namorados se beijando: eles estão experimentando os prazeres da vida. Que tudo se faça para que a vida se exprima na exuberância da sua felicidade! Para isso, todos os esforços devem ser feitos.Mas eu pergunto: a vida não será como a música? Uma música sem fim seria insuportável. Toda música quer morrer. A morte é parte da beleza da música. A manga pendente num galho: tão linda, tão vermelha. Mas o tempo chega quando ela quer morrer. A criança brinca o dia inteiro. Chegada a noite, ela está cansada. Ela quer dormir. Que crueldade seria impedir que a criança dormisse quando o seu corpo quer dormir.A vida não pode ser medida por batidas e coração ou ondas elétricas. Como um instrumento musical, a vida só vale a pena ser vivida enquanto o corpo for capaz de produzir música, ainda que seja a de um simples sorriso. Admitamos, para efeito de argumentação, que a vida é dada por Deus e que somente Deus tem o direito de tirá-la. Qualquer intervenção mecânica ou química que tenha por objetivo fazer com que a vida dê o seu acorde final seria pecado, assassinato.Vamos levar o argumento à suas últimas conseqüências: se Deus é o senhor da vida e também o senhor da morte, qualquer coisa que se faça para impedir a morte, que aconteceria inevitavelmente, se o corpo fosse entregue à vontade de Deus, sem os artifícios humanos para prolongá-la, seriam também uma transgressão da vontade divina. Tirar a vida artificialmente seria tão pecaminoso quanto impedir a morte artificialmente, porque se trata de intromissões dos homens na ordem natural das coisas determinada por Deus.A vida, esgotada a alegria, deseja morrer. O que eu desejo para mim é que as pessoas que me amam me amem do jeito como eu amo os meus cachorros.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Honra teu pai e tua mãe

Há algo de misterioso no cosmo que contribui com as palavras ditas pelos nossos pais a nosso respeito. Gravado em nossa alma, a partir de nosso DNA, estão seus semblantes, seus olhares, seus sonhos, nossos destinos (será?). Se "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais" é porque recebemos deles um legado praticamente inextricável em nós. Aqueles que por nós verteram lágrimas, aqueles que sem dúvida desviariam para eles todas as agruras da vida a nós destinadas, aqueles que se alegram em cada passo nosso em direção à felicidade, têm um poder sobrenatural em seus conselhos. A individualidade narcisistica da modernidade nos leva a esquecer os conselhos dos que nos amam e achar que o mundo conspira a nosso favor, pois sabemos o que é melhor para nós: não precisamos de conselhos. Mas parece que Ele criou a roda que gira o curso de nossas vidas faltando uma peça: as mãos daqueles que mais nos amam pousando sobre nossa cabeça como símbolo de afirmação e aprovação aos nossos passos. Sem esta peça a roda gira defeituosa, suscetível aos percalços desviantes e destrutivos. Ouve o teu pai, presa pela confiança dele. Escuta tua mãe, agradece ao carinho a ti destinado de tal forma que nehum outro mortal te amará semelhantemente. "Honra teu pai e tua mãe para que te prolonguem os dias na terra..."
Cleonardo

Fermento na Massa

Trechos do texto "Fermento na Massa"
Por Frei Betto
"...Dentro desse contexto, anunciar o Reino de Deus, um outro reino que não o de César, era o mesmo que, hoje, propagar um outro sistema social que não o capitalismo. Esta a subversão de Jesus: desmerecer o reino de César em favor do reino de Javé, o Deus dos judeus. Os romanos respeitavam a crença judaica, desde que o povo se sujeitasse a ser vassalo de Roma. Porém, por que suplicar a Javé “venha a nós o vosso reino”?
Jesus nem sequer possuía uma moeda romana quando lhe perguntaram se era lícito pagar imposto a Roma. E ao responder “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” os fariseus entenderam o recado: esta terra não é de César, como é esta moeda. Esta terra é de Deus e, portanto, não se justifica a sua dominação por estrangeiros.
“Seja feita a sua vontade assim na terra como no céu”. No céu predomina, todos sabemos, a vontade de Deus. Jesus propugna que o mesmo ocorra na Terra. E a vontade de Deus é que todos “tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10). Portanto, ao contrário do reino de César, no de Deus não há lugar para a opressão, a discriminação, a exclusão.
Indignado com a pretensão de Jesus, Pilatos mandou afixar na cruz a inscrição: “Rei dos judeus”. Era a forma de desmoralizar a descabida proposta de contrapor ao todo poderoso reino de César um outro reino, o reino do Pai nosso que está no céu e que haverá de assegurar a todos o “pão nosso”, os bens necessários a uma vida digna e feliz.
Para Jesus, o Reino de Deus não se situava “lá em cima” e sim lá na frente, no horizonte histórico. Não na utopia, que significa “lugar nenhum”, e sim da eutopia, um “lugar muito bom”.
Hoje, o reino capitalista neoliberal, hegemonizado pelo governo dos EUA e idolatrado na onipresença do Mercado, se contrapõe ao Reino de Deus, cujas características estão descritas no Sermão da Montanha: viveremos sem ambições desmedidas, com espírito despojado; promoveremos a paz; teremos fome e sede de justiça; seremos misericordiosos; agiremos com mansidão; e encararemos como bênção, e não como maldição, a perseguição por causa da justiça.
Resta-nos transformar os valores de nossa espiritualidade em projetos políticos, de modo a fazer de nossa fé efetivo fermento na massa."

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Nação



"Elevei minha alma pra passear"
Trecho de "Bossa Nostra" (Nação Zumbi)


Foi simplesmente demais.




Enquanto isso na sala de justiça, 2008






domingo, 27 de janeiro de 2008

Uma Conversa (sincera) sobre oração

Agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. A reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. Quando rezava conseguia um oco de alma – e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. Mais do que isso, nada. Mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno.

Clarice Lispector em “A Hora da Estrela”

Cansei da visão utilitarista da oração: Orar como forma de manipular o divino a fim de que ele conspire ao meu favor. Oração não é um meio, é um fim em si mesmo, porque ela existe como contemplação, como uma conversa onde as máscaras que utilizamos na dramaturgia do cotidiano são jogadas fora a fim de sermos quem realmente somos. Oração é conversa de pé de ouvido. É estar lá por que é lá que se quer estar, e em nenhum outro lugar. É querer somente conversar com um amigo que também só quer conversar, porque você precisa de alguém pra te ouvir e ele também. Oração não é uma apresentação de uma lista de presentes como se faz com papai-noel no Natal: É chegar ao “tudo que posso eu jamais ter”. É chegar de mãos vazias com a possibilidade de voltar de lá ainda com as mãos vazias (de materialismo), sabendo, porém, que este “vazio” tem “o valor e a semelhança do pleno”. A tentativa de manipular o sagrado não advém da religião, é feitiçaria. O que realmente fazem os xamãs neopentecostais, em sua tentativa de “mover o braço de Deus” ao seu bel prazer, é afastar, pra bem longe, Aquele que divide os homens em humildes e arrogantes e escolhe ficar, sempre, ao lado dos humildes, dos publicanos (da parábola contada por Jesus e intitulada de “O fariseu e o publicano) que sempre dizem: Tem misericórdia de mim, pecador! Ao invés de se arrogar como os fariseus: Ainda bem que não sou como este publicano!
Sim, não é fácil ter esta postura de contemplação quando estamos cercados de visões utilitaristas, funcionalistas, consumistas, hedonistas, feiticeiras, espúrias e manipuladoras. Porém, temos o mapa de uma oração ideal. Há um roteiro que podemos seguir na oração que o próprio Jesus nos ensinou. Nela apreendemos um pouco do caráter do Pai, e entendendo-o mais, poderemos chegar até Ele da melhor maneira possível. Vejamos alguns trechos da oração que ficou conhecida como o “Pai Nosso”:

Pai Nosso

Não é à toa que Jesus não começa a oração com termos como “Oh, grandessíssimo pai de luz ou “Oh, inominável ser de infinita grandeza”. Ele começa a conversa de pé de ouvido chamando Deus de Pai: é assim que Ele quer ser conhecido. Ele não é um velho carrancudo sentado num trono brincando de lançar tribulações sobre as suas criaturas perdidas num labirinto opressor. Ele é Pai. Aquele com o qual podemos contar ainda que nem tudo vá bem. E o pai não é meu nem seu, é nosso. Ou seja, nem ninguém, nem nenhuma instituição, possuem a exclusividade de sua presença, de sua amizade, de seus ouvidos. Kierkgaard pergunta: Quando alguém, de coração falso ora ao Deus verdadeiro e outro alguém de coração verdadeiro, ora a um deus falso, que oração o Deus verdadeiro vai ouvir? A oração que brota de um coração falso nunca será ouvida.
Nenhuma religião, qualquer nome que ela tenha, ainda que tente (e muito), pode impor barreiras e monopolizar o contato com Aquele que é Pai Nosso, nem substituir a intimidade que podemos ter com Ele na solidão e quietude de nosso quarto, ao reclinarmos nossas cabeças, para, no oco de nossa alma, termos sua presença preenchendo tudo com o que é pleno.

Que estás nos céus

Ele não se encontra num prédio enorme no centro da cidade com uma secretária horrível na porta distribuindo senhas que vão até o infinito. Nem pode ser invocado segundo os nossos caprichos como o gênio da lâmpada mágica (Se bem que há igrejas “vendendo” estas “lâmpadas” para os mais desavisados). Onde é o céu? O homem já pisou na lua, sondas já alcançaram Marte e ninguém viu a Deus. Ele não está ao alcance de nossas mãos (falando em termos de matéria). Se assim fosse, Ele seria um instrumento, não Deus, e o buscaríamos sempre como um oráculo, nunca como um Pai. Sendo assim, precisamos encontrá-lo na quietude mais recôndita de nossa alma, em nossa atitude de nos desligarmos da correria da roda-viva da vida para com ele conversar. Esta distância física, imbuída de uma proximidade só alcançada por nosso espírito é um exercício de fé, de crer no que não podemos ver. Os céus precisam ser abertos por corações de crianças que acreditam chegar num lugar, pela circunspecção da fé, onde ninguém pode alcançá-las ou incomodá-las, nem assustá-las.

Santificado seja o teu nome

De onde vem nossa necessidade de sermos reconhecidos? A solidão de Deus, a solidão eterna da trindade antes de ser criado alguém que o amasse não como os anjos, criados para isso, mas por opção, e a sua necessidade infinita de relacionamento ficam claras quando Jesus nos convida a santificarmos Àquele que é santo.

Venha o teu reino

O reino de Deus só é percebido pelas igrejas institucionais, evangélicas ou católicas – não se esquecendo do movimento da missão integral naquelas nem das pastorais nestas – num sentido escatológico, ou seja, na perspectiva de que a vontade divina só se realizará na plenitude dos tempos. Enquanto isso, as igrejas vestem a carapuça de “ópio do povo” esquecendo que o Reino e seus valores devem ser implantados, ainda que não plenamente, como numa maquete, desde já. E no reino de Deus não há desigualdade, não há uma população de milhões vivendo abaixo da linha da pobreza, nem empregadas domésticas espancadas nas paradas de ônibus, muito menos mendigos sendo queimados enquanto dormem. No Reino de Deus há justiça, porque o Reino é justiça, paz e alegria (Rom 14:17). E anular esta faceta do reino em detrimento de um individualismo que não é bíblico, pelo contrário, é fruto da modernidade narcisista, e calar-se diante das mazelas que assolam nossa sociedade, é pregar quaisquer valores, menos os do verdadeiro Reino.

Assim, sejamos como o publicano da parábola, entendamos o Pai, oremos o Pai Nosso. Não como um mantra, mas como um estilo de vida.

Oremos.

Cleonardo

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Por que eu escrevo?

Por Orhan Pamuk. Prêmio Nobel de Literatura

“Escrevo porque tenho uma necessidade inata de escrever! Escrevo porque sou incapaz de fazer um trabalho normal, como as outras pessoas. Escrevo porque quero ler livros como os que eu escrevo.

Escrevo porque sinto raiva de todos vocês, sinto raiva de todo mundo. Escrevo porque adoro passar o dia sentado à mesa escrevendo. Escrevo porque só consigo participar da vida real quando a modifico.

Escrevo porque quero que os outros, todos nós, o mundo inteiro, saibam que tipo de vida nós vivemos, e continuamos a viver, em Istambul, na Turquia . Escrevo porque adoro o cheiro do papel, da caneta e da tinta.

Escrevo porque acredito na literatura, na arte do romance, mais do que em qualquer outra coisa. Escrevo porque é um hábito, uma paixão.

Escrevo porque tenho medo de ser esquecido, porque gosto da glória e do interesse que a literatura traz. Escrevo para ficar só. Talvez escreva porque tenho a esperança de entender por que eu sinto tanta, tanta raiva de todos vocês, tanta, tanta raiva de todo mundo.

Escrevo porque gosto de ser lido. Escrevo porque depois que começo um romance, um ensaio, uma página, sempre quero chegar ao fim. Escrevo porque todo mundo espera que eu escreva.

Escrevo porque tenho uma crença infantil na imortalidade das bibliotecas, e na maneira como meus livros são dispostos na prateleira.

Escrevo porque é animador transformar todas as belezas e riquezas da vida em palavras. Escrevo não para contar uma história, mas para compor uma história.

Escrevo porque desejo escapar do presságio de que existe um lugar para onde preciso ir mas ao qual – como um sonho – nunca chego. Escrevo porque jamais consegui ser feliz. Escrevo para ser feliz”.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Um pouco mais que um galeto

Quando meu pai era guri, e ainda não trabalhava, seu sonho de consumo era comprar um galeto destes que ficam girando nas churrasqueiras das esquinas das ruas e avenidas expelindo fumaça como um vulcão atraindo a todos pelo olfato. Imagino meu pai passando e vendo, de dentro do ônibus, ou caminhando mesmo, o girar hipnotizador daqueles galetos e ao sentir o cheiro salivante da fumaça dizer: - Ainda como um galeto destes, todinho, e sozinho! Pois é, seu sonho não era comprar um galeto daqueles, apenas: A questão era comprar um inteiro e comê-lo "s-o-z-i-n-h-o". E o que vocês acham que ele fez quando começou a trabalhar de office boy num banco (que nem existe mais)? Comer o tal galeto, e lógico, inteiro e sozinho - Sonho realizado.
Chegando em casa esta semana vejo, na garagem, não outro galeto, maior e mais completo, mas um merecido presente que ele resolveu se dar depois de ter gastado, ou melhor, investido, muito mais do que isto com três filhos que agora já ensaiam sua independência financeira. Muito mais que merecido. Em sua vida deve ter sido só o galeto que ele quis desfrutar sozinho, e nada, nada mais, pois tudo o que somos e pretendemos ser vêm de seu altruísmo e dedicação incansáveis. Agora é colocar todo mundo dentro e sair pra celebrar, como sempre fazemos, comendo. Que tal um galeto?

Parabéns, meu velho!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Eu também, Pessoa

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Àlvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Eu também estou farto dos semideuses, Pessoa!
Eu também, Eu também!

Poema em Linha Reta

Conheci esta poesia através de Mônica, grande amiga. Ela me disse que havia lido e lembrado de mim. Eu, quando o li, morri de inveja de Pessoa e achei que eu, e não ele, deveria ter escrito este poema. Sim, eu sei, é muita pretensão: Nunca teria escrito desta maneira - é melhor que tenha sido Pessoa, então. Tomo-o, assim, emprestado, como se fosse meu, como se eu o estivesse lendo em voz alta, melhor, gritando pra todo mundo ouvir. Posto-o aqui com vontade de colocá-lo num outdoor pra que todo mundo que passasse pudesse lê-lo. Aí vai:

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Visita Ilustre

Hoje, enquanto escrevia um texto sobre oração, o qual pretendo postar em breve, recebi a visita de um passarinho: um pardal, destes que tantos há por aqui ainda, destes pardais que se acostumaram a substituir os galhos das árvores pelos fios dos postes. Ele entrou pela porta de trás de casa, que dá para o meu quarto. Estava com a porta aberta e ele olhou pra mim, assustado, enquanto eu escrevia. Entrou, olhou pra mim, e saiu rapidamente. Quem sabe queria trazer notícias das terras por onde andara. Quem sabe tinha recados do céu. Só deu tempo de olharmos nos olhos um do outro e ele foi embora, voando ligeiro. Deve ter vindo somente para ver se eu estava bem. Se for isto mesmo, então vai lá, passarinho: Pode dizer que está tudo bem e que eu continuo amando Aquele que, num sopro, te enviou aqui pra ver como eu estava. E da próxima vez não se assuste, pode entrar. Não sei fazer café, nem chá (Também nem sei se você gosta mesmo). Ah, tem refrigerante. Entre! Da próxima vez, quem sabe, poderemos conversar e você possa me emprestar suas asas, porque voar, caro amigo (não sei se já posso lhe chamar assim) é um grande sonho. Tudo bem, até imagino o que você vai me dizer: Posso voar, mas não posso viajar numa grande amizade, num grande amor, numa grande canção, em grandes palavras. Pois é, amigo: eu me roendo de inveja de você, e você, arrancando as penas de inveja de mim. É verdade, prefiro ficar com as amizades, os amores, as canções e as palavras.

Boa Viagem e Até mais!!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Transferência

"Vc está escrevendo cada vez mais como se estivesse escrevendo por mim. Escrevendo o que eu escrevia, da forma como eu gostaria de escrever se soubesse, tivesse o seu talento e tempo. Eu acho isso muito bom! Assim eu leio o que eu mesmo escreveria se tivesse tempo e talento, sem ter escrito, e ainda consigo me elogiar sem fazer nenhum esforço. Que bom que existem caras como vc!"

Escrito para mim por um grande amigo.